
O município de Currais Novos, localizado na região do Seridó potiguar, deve atingir universalização do saneamento básico por meio de uma parceria entre a Caern (Companhia de Águas e Esgotos do Rio Grande do Norte), a prefeitura local e a mineradora canadense Aura Minerals. O projeto prevê a reutilização de efluentes sanitários tratados na operação industrial da empresa, que extrai ouro na região. O acordo foi discutido na Governadoria, em reunião com a governadora Fátima Bezerra (PT), o prefeito Lucas Galvão (PT) e a diretoria da mineradora.
O projeto prevê o reuso da água do esgoto no processo de operação da Unidade Borborema — ativo da Aura Minerals no estado —, o que será formalizado via contrato especial de cessão de efluentes. Diante da severa escassez hídrica que historicamente atinge a região do Seridó, a medida evita que a mineradora dispute o uso de água dos açudes locais com a população.
Como contrapartida, a Aura Minerals aportará um investimento de R$ 50 milhões nas obras de saneamento da cidade. Embora o montante seja apresentado pelas autoridades como uma contrapartida socioambiental, o tratamento e a destinação adequada desse material são, por regulação, obrigações inerentes à atividade da própria companhia.
O descarte incorreto de rejeitos químicos da mineração de ouro é altamente tóxico para o meio ambiente e capaz de provocar graves desequilíbrios ecológicos na região. Especialistas apontam que esse tipo de resíduo não pode ser descartado na natureza de forma indiscriminada, sendo o tratamento e a reutilização em circuito fechado as únicas saídas sustentáveis viáveis para a operação.
A responsabilidade técnica e financeira pela mitigação desse passivo recai diretamente sobre a Aura Minerals, cujo faturamento no setor tem registrado forte alta. No primeiro semestre de 2026, as exportações de ouro do Rio Grande do Norte somaram US$ 157,5 milhões (cerca de 24,6% de toda a pauta exportadora do estado no período), colocando o RN na sexta posição entre os maiores exportadores do metal no país. A operação comercial da mina em Currais Novos teve início em 2025.
"É o Estado fazendo o seu papel, através do Idema, que exigiu todo o rito de licenciamento ambiental, e agora da Caern", afirmou a governadora Fátima Bezerra. "Esses investimentos têm que estar concentrados não só na compensação ambiental, mas na contrapartida social também."
Segundo o prefeito Lucas Galvão, o município dobrou a geração de empregos formais com a atividade, impulsionada também pela arrecadação do CFEM (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais). "Com esse recurso mensal, a gente consegue fazer investimentos na estrutura da cidade. Após um ano e oito meses, já pavimentamos mais de 70 ruas", disse. A mineradora emprega atualmente 1.600 pessoas na região.
"Desde 2023, já são mais de R$ 1 bilhão investidos em Currais Novos e a gente pretende ampliar isso", afirmou Fred Silva, diretor-presidente da Aura Minerals – Unidade Borborema. De acordo com o executivo, o ouro extraído é exportado majoritariamente para o mercado europeu. A estimativa da multinacional canadense é manter as operações na área pelos próximos 30 anos.