
Lula, PT e aliados vivem um momento que guarda semelhanças com a crise recente do Partido Democrata nos Estados Unidos. Não se trata de dizer que os dois países atravessam a mesma situação. O alerta está no risco de uma força política girar em torno de uma liderança única, adiar a renovação e evitar o exame dos próprios erros até perder a capacidade de falar com o país real.
Os democratas insistiram na candidatura de Joe Biden e, quando a substituição se tornou inevitável, ungiram Kamala Harris sem uma disputa interna aberta. A derrota de 2024 deixou questões de sucessão, mensagem e organização sem resposta consensual. É um aviso para qualquer partido que confunda a preservação do líder com a preservação de seu projeto. A autocrítica tardia, fragmentada ou feita apenas para confirmar posições anteriores pouco ajuda a recuperar a confiança.
No Brasil, o primeiro turno pede reflexão semelhante. Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16% do presidente. Lula reconheceu que foi a campanha menos organizada de que participou desde 1989. Mas o resultado não se explica apenas por uma disputa de comunicação. Mais de 33 milhões de eleitores não compareceram às urnas, e especialistas divergem sobre o peso da abstenção e do voto útil na vantagem de Flávio. A lição é que intenção de voto, comparecimento e mudança de preferência precisam ser analisados juntos, sem que a campanha escolha apenas a explicação mais confortável.
Falo a partir da minha própria experiência quando presidente da Petrobras, época em que estive entre as pessoas que mais conviveram com o Presidente. Ao longo daqueles mais de 15 meses, vi Lula ser progressivamente isolado por filtros, instâncias e intermediários, com dificuldades crescentes de acesso até a ministros, lideranças relevantes e amigos.
Um presidente que recebe o país por versões selecionadas corre o risco de confundir a proteção do entorno com a realidade. Bajulação, intriga e bloqueio de interlocuções qualificadas degradam a capacidade de governar.
É preciso que Lula tenha meios seguros e independentes para pesquisar, consultar fontes e acompanhar o debate público. Um celular ou tablet protegido pode ampliar sua autonomia. A segurança presidencial é indispensável, mas não deveria fazer com que toda informação relevante chegasse por terceiros. Há um caldo de cultura digital, com novas linguagens, conflitos e formas de organização, que já não pode ser filtrado e pasteurizado. O problema não se resolve com uma selfie ou uma mudança de formato: exige contato direto com a sociedade e compreensão de como ela conversa, trabalha e se informa.
Uma reportagem de hoje da revista Time oferece uma chave importante: o Brasil mudou. Cresceu o contingente de trabalhadores informais, autônomos e empreendedores; igrejas ocupam espaços de sociabilidade e proteção; a confiança nas instituições se desgastou; e as redes digitais passaram a organizar comunidades políticas próprias. O vocabulário da esquerda, construído em torno do emprego formal, do sindicato e da proteção estatal, não alcança automaticamente quem hoje sente o Estado como obstáculo ou o percebe ausente. É preciso reconhecer essa experiência sem abandonar a defesa dos direitos e da justiça social.
Também é insuficiente responder ao aperto cotidiano apenas com indicadores de emprego ou novos benefícios. Dívidas familiares, juros altos e a sensação de que a renda não acompanha o custo de vida alimentam o descontentamento.
A responsabilidade fiscal não pode ser tratada como concessão à Faria Lima: ela é condição para que o Estado tenha capacidade de investir e sustentar políticas sociais ao longo do tempo. Ao mesmo tempo, o mercado não pode ganhar o monopólio do discurso sobre eficiência, empreendedorismo e futuro.
Isso exige diálogo qualificado com empresas, bancos e investidores, além de um Estado que entregue serviços e oportunidades concretas.
Naquele período, insisti que não se deveria personalizar tudo na figura de Lula. Na engenharia, há um conceito chamado single point of failure, ou ponto único de falha: um componente sem redundância cuja falha paralisa todo o sistema. Lula foi transformado nessa peça crítica. Concentram nele os méritos, os ataques, as bajulações e a responsabilidade por cada tropeço. Uma frase infeliz, dita no calor de um discurso para uma plateia entusiasmada, pode se converter em crise de governo; até uma sugestão bem-intencionada de Janja pode ganhar dimensão de decisão oficial quando falta uma equipe capaz de contextualizar, debater e assumir coletivamente as escolhas.
O caso dos democratas e a substituição tardia de Biden por Kamala Harris mostram o custo de deixar a renovação para quando a crise já está instalada. O país precisa enxergar um time que governe ao lado do Presidente, defenda o que está certo, corrija o que está errado e prepare uma sucessão legítima.
Quando os méritos se concentram em uma só liderança e as responsabilidades se dispersam, o governo fica vulnerável e o campo progressista perde a capacidade de construir seu próprio futuro.
A direita se apresenta em várias linguagens e oferece um rosto para diferentes grupos. A esquerda precisa voltar a mobilizar pela força de suas propostas, defender um Estado que funcione e abrir espaço para a pluralidade de seus quadros e aliados. Não precisamos imitar os Estados Unidos para aprender com os erros dos democratas. Precisamos reconhecer os nossos antes que a política se reduza a líderes cercados, partidos sem renovação e cidadãos convencidos de que nada muda.
A esquerda brasileira tem história e capilaridade para reconstruir vínculos com as maiorias. Para isso, deve ouvir críticas sem tratá-las como traição, dialogar com quem se afastou e fazer da ação pública uma resposta visível às necessidades do país. Reagir à adversidade sempre foi parte da nossa história. Agora é hora de mudar as mensagens, ampliar o time e deixar a sociedade participar. Presidente Lula, permita-nos ajudar.