
Na reta final do mandato da governadora Fátima Bezerra (PT), o governo do Rio Grande do Norte tenta consolidar uma marca de superação no caótico histórico da saúde pública do estado. Em balanço apresentado durante agenda governamental em Mossoró, o secretário estadual de Saúde, Alexandre Mota, apontou um salto expressivo nos principais indicadores hospitalares em comparação com a gestão anterior, embora admita que o tempo de espera dos pacientes nas filas ainda é um desafio a ser superado.
"Quando a gente faz um balanço em relação a esse quesito, é só olhar como era o governo anterior, em relação a todos os quesitos: segurança, na questão de pagamento de salário, na questão da saúde como um todo", afirmou o secretário. Segundo dados da Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap), o número de cirurgias gerais realizadas anualmente na rede estadual saltou de aproximadamente 30 mil para 95 mil procedimentos. O incremento coloca o Rio Grande do Norte na segunda posição nacional em realização de cirurgias de alta complexidade, o que Mota classificou como "um número absolutamente relevante".
O avanço na infraestrutura foi impulsionado, em grande parte, pelo modelo de enfrentamento adotado durante a pandemia de Covid-19. Diferente de outros estados, o RN optou por não construir hospitais de campanha provisórios, direcionando os recursos para a reestruturação e ampliação de unidades que estavam paradas ou subutilizadas. "Nós não abrimos hospital de campanha, nós pegamos aquelas redes de hospitais que estavam ou parados ou subutilizados e nós transformamos", explicou.
O reflexo mais evidente dessa política deu-se na oferta de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) na região Oeste. "Nós tínhamos, em toda a região aqui de Mossoró, nós tínhamos nove leitos de UTI. Hoje nós temos 54", destacou o gestor. O interior do estado também recebeu aportes, com mais dez leitos críticos nos municípios de Assu e Pau dos Ferros. Em paralelo, as vagas de enfermaria — chamadas de leitos de retaguarda e consideradas essenciais para o fluxo de vazão das UTIs — registraram um crescimento global de 10% em todo o estado.
Interiorização do atendimento de urgência
O principal trunfo apresentado pela gestão é a capilarização do atendimento médico de urgência para doenças cardiovasculares, as que mais matam no país. De acordo com o secretário, o estado implementou a chamada linha do infarto em todos os seus 167 municípios, garantindo diagnóstico rápido e aplicação de medicamentos que abrem o vaso e salvam a pessoa no primeiro momento. O protocolo teria sido responsável por salvar cerca de 2.000 vidas. "Quando você diz assim, 'ah, só foram 2 mil', são 2 mil famílias, 2 mil pessoas que não perderam seus amigos queridos, seus entes queridos", defendeu Mota.
Para o tratamento do Acidente Vascular Cerebral (AVC), o governo estruturou linhas de cuidado em todas as oito regiões de saúde, fixando referências em cidades polos como Natal, Mossoró, Caicó e Pau dos Ferros. "As pessoas já não morrem como morriam antes", assegurou.
Para suprir o déficit crônico de médicos especialistas fora da capital, a Sesap aposta no uso da telemedicina para o AVC isquêmico. O paciente passa por uma tomografia que é analisada à distância por equipes neurológicas, que autorizam a aplicação imediata do trombolítico para que o paciente "nem fique sequelado nem morra". O governo informou que está em vias de contratar uma empresa do Rio Grande do Sul especializada em telessaúde para expandir o serviço.
Mota ressaltou o impacto social de evitar as sequelas graves da doença: "Quando você pega uma pessoa dessa e deixa ela limitada em casa, na verdade você não limita só uma, você limita duas. Ela e a pessoa que vai cuidar dela, percebe? E às vezes eram pessoas jovens, eram pessoas que estavam com toda a sua vida produtiva pela frente." Já nos casos de AVC hemorrágico na região Oeste, a intervenção cirúrgica imediata é centralizada no Hospital Regional Tarcísio Maia, em Mossoró.
Desafio das filas persiste
Apesar do tom de celebração com os dados assistenciais, o comando da saúde potiguar adiantou que o cenário real do cidadão na ponta ainda carece de celeridade. "Estamos longe ainda do que era a necessidade do povo. A gente precisa compreender que o esforço foi grande, foi gigantesco", reconheceu Alexandre Mota.
Pressionada por reclamações recorrentes sobre a espera prolongada por exames diagnósticos básicos de imagem, a pasta argumentou que, embora o cenário atual ainda cause insatisfação, ele representa uma redução frente aos prazos de anos anteriores. "O cara que está numa fila de ressonância, como teve uma senhora dizendo, 'estou esperando há três meses', para ela três meses é um infindável, mas três anos no passado era muito mais", pontuou o secretário. "Isso não é justificativa para não buscar a resolutividade mais rápida, mas sem dúvida nenhuma os avanços são enormes", concluiu.