COLUNA OPINIÃO
Jean Paul Prates é Chairman do CERNE, ex-senador da República e ex-presidente da Petrobras.
NATAL, 28 DE JUNHO DE 2026
Depois do vídeo de Ciro Gomes sobre as promessas em torno do hidrogênio verde, muita gente me perguntou: afinal, o que acontecerá com os projetos anunciados no Rio Grande do Norte?
Minha resposta é simples: o hidrogênio verde não deve ser tratado nem como milagre nem como embuste.
O Rio Grande do Norte tem atributos reais para atrair essa indústria. Temos vento, sol, capacidade técnica acumulada, litoral, vocação portuária, experiência em energia renovável e necessidade de transformar nosso excedente energético em atividade industrial, emprego qualificado e arrecadação.
Mas uma tecnologia promissora não torna automaticamente viável qualquer projeto que se anuncie em seu nome.
Uma licença prévia ambiental, por exemplo, é um passo importante. Ela reconhece a viabilidade ambiental da localização e da concepção apresentada, com requisitos para as fases seguintes. Não equivale, entretanto, a obra contratada, financiamento assegurado, energia conectada, comprador definido, licença de instalação ou operação autorizada.
Essa distinção precisa ser compreendida pela sociedade e respeitada pelos governos.
O Nordeste compartilha oportunidades extraordinárias, mas também compartilha um risco: grupos e propostas podem circular entre estados em busca de nova visibilidade, chancela institucional e expectativas públicas. Isso não autoriza condenar ninguém sem prova. Exige método, transparência e diligência.
Antes de celebrar investimentos bilionários, é necessário perguntar quem são os controladores, qual o histórico de execução, de onde virá o capital, quais parceiros assumem riscos, quem comprará o produto, como se garantirá energia, transmissão, água, logística portuária e quais são os cronogramas reais de implantação.
A pergunta correta não é se o hidrogênio verde “vai dar certo” ou “vai fracassar”. A pergunta é se cada projeto específico dispõe das condições técnicas, econômicas, financeiras e comerciais para sair do papel.
O mesmo critério deve valer para data centers, portos, ferrovias, eólica offshore, indústrias verdes e qualquer grande obra de infraestrutura. O Rio Grande do Norte precisa continuar aberto a investidores, mas não pode confundir cerimônia com investimento, apresentação com engenharia, nem promessa com capacidade de execução.
Uma boa providência seria criar um painel público de projetos estratégicos do Estado, classificando cada empreendimento conforme seu estágio real: intenção, estudos, licenciamento prévio, licença de instalação, financiamento contratado, obra iniciada e operação comercial.
Isso protegeria a população, daria segurança aos investidores sérios e impediria que projetos frágeis contaminassem oportunidades verdadeiras.
O hidrogênio verde pode ser parte importante do futuro industrial potiguar. Para isso, precisa ser tratado com seriedade, dados verificáveis e responsabilidade pública.