19 MAR 2026 | ATUALIZADO 10:51
NACIONAL
Por Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras
19/03/2026 08:42
Atualizado
19/03/2026 08:42

[COLUNA OPINIÃO] O paradoxo energético vivenciado pelo Brasil

Estamos escolhendo energia mais cara — e ignorando soluções melhores. Em novo artigo, Jean Paul Prates explica por que decisões equivocadas hoje podem pesar na sua conta de luz amanhã. "O diagnóstico é correto. A solução, não. Em vez de incorporar tecnologias modernas e flexíveis, o país insiste em modelos tradicionais baseados em termelétricas e hidrelétricas, muitas vezes mais caras, menos eficientes e ambientalmente questionáveis. Ignora-se, mais uma vez, a alternativa mais lógica: o armazenamento de energia por baterias". Mais, na COLUNA OPINIÃO
Estamos escolhendo energia mais cara — e ignorando soluções melhores. Em novo artigo, Jean Paul Prates explica por que decisões equivocadas hoje podem pesar na sua conta de luz amanhã. "O diagnóstico é correto. A solução, não. Em vez de incorporar tecnologias modernas e flexíveis, o país insiste em modelos tradicionais baseados em termelétricas e hidrelétricas, muitas vezes mais caras, menos eficientes e ambientalmente questionáveis. Ignora-se, mais uma vez, a alternativa mais lógica: o armazenamento de energia por baterias". Mais, na COLUNA OPINIÃO
Imagem IA

Jean Paul Prates é Mestre em Política Energética e Gestão Ambiental pela Universidade da Pensilvânia e Mestre em Economia da Energia pela IFP School (Paris). Foi Secretário de Estado de Energia e Assuntos Internacionais da Governadora Wilma de Faria no Estado do Rio Grande do Norte (2003–2005 e 2007–2010), Senador da República pelo Estado do Rio Grande do Norte (2019–2023), Coordenador do capítulo de Energía, Petróleo e Gás da Transição de Governo do Presidente Lula (2022–2023) e presidente da Petrobrás (2023–2024).

Potência sem estratégia

O Brasil vive um paradoxo energético: amplia rapidamente sua geração renovável, sobretudo eólica e solar, mas enfrenta dificuldades crescentes para garantir estabilidade ao sistema. A resposta adotada tem sido contratar “potência”, ou seja, pagar por usinas disponíveis para gerar energia quando necessário.

O diagnóstico é correto. A solução, não. Em vez de incorporar tecnologias modernas e flexíveis, o país insiste em modelos tradicionais baseados em termelétricas e hidrelétricas, muitas vezes mais caras, menos eficientes e ambientalmente questionáveis. Ignora-se, mais uma vez, a alternativa mais lógica: o armazenamento de energia por baterias.

O gás natural é um recurso nobre. Poderia estar sendo usado para produzir fertilizantes, fortalecer a petroquímica, gerar empregos e reduzir importações. Em vez disso, estamos queimando esse gás para gerar eletricidade. O carvão é ainda pior: poluente, antiquado e cada vez menos competitivo no mundo. E as hidrelétricas, embora importantes, são caras e dependem de chuvas cada vez mais incertas.

O armazenamento em sistemas de baterias resolve exatamente o problema atual. Permite guardar o excedente de geração renovável, hoje frequentemente desperdiçado, e devolvê-lo ao sistema de forma quase instantânea. É uma solução já adotada em larga escala em mercados maduros.

Além disso, parecemos ignorar a versatilidade dos sistemas digitais modernos capazes de gerenciar a demanda ajustando o consumo em tempo real: redes inteligentes que equilibram melhor a distribuição de energia e soluções descentralizadas, onde empresas e até consumidores ajudam a estabilizar o sistema.

No Brasil, porém, seguimos travados por um fator central: a ausência de interesse em aplicar uma visão integrada ao funcionamento da matriz energética brasileira, disfarçada de alegada falta de tempo para elaborar a devida regulamentação.

O Ministério de Minas e Energia não tratou o tema com a urgência necessária. O resultado é um vácuo regulatório que impede a entrada estruturada dessas soluções, ao mesmo tempo em que favorece alternativas conhecidas e politicamente bem apoiadas.

Isso distorce o planejamento. Em vez de permitir competição entre diferentes tecnologias, vencendo a mais eficiente, segmenta-se o mercado e restringe-se o jogo. O efeito é previsível: menor concorrência, custos maiores e decisões tecnicamente inferiores.

Há ainda um equívoco persistente: a ideia de que apenas térmicas garantem segurança ao sistema. Não é mais verdade. Muitas dessas usinas têm baixa flexibilidade e tempos de resposta elevados, incompatíveis com a dinâmica de um sistema cada vez mais renovável. Insistir nesse modelo é perpetuar ineficiências. E elas têm custo. Tarifas mais altas, perda de competitividade e atraso na modernização do setor elétrico.

É difícil acreditar que, com todas essas implicações (aumento de custo, desperdício de energia e atraso tecnológico), esse tema esteja sendo apresentado ao Presidente da República com a clareza e a profundidade que merece. Porque, se estivesse, dificilmente ele aceitaria continuar adiando soluções estruturais e adotando caminhos mais caros e menos eficientes.

O que vemos hoje é um setor ainda muito influenciado por interesses estabelecidos, onde soluções antigas avançam mais rápido do que as melhores soluções. O Brasil tem todas as condições para liderar a nova etapa da transição energética. O que falta é decisão isenta e eficiente. Decisão para regulamentar o armazenamento, para abrir o sistema à competição real entre fontes, e para planejar o futuro, evitando ter que repetir erros do passado.

Se isso não for feito, o preço virá. E será pago por todos.

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