07 AGO 2026 | ATUALIZADO 17:58
SAÚDE
Por: Ayrton Silva
07/08/2026 17:58
Atualizado
07/08/2026 17:58

A pressa de vir ao mundo: O drama invisível e o calor do colo que salvam os bebês no RN

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Grávidas cruzam estradas rumo a uma maternidade que se tornou a grande referência para bebês que nascem antes da hora, em Mossoró, no interior do Rio Grande do Norte. Entre o isolamento frio da UTI e o aconchego do método Canguru, as histórias de Jarydia e Josilene revelam a poesia e a dor de mães que ensinam seus filhos a respirar. Diante de gargalos na assistência à gestação, o afeto e a medicina se entrelaçam em uma corrida diária para garantir o direito de crescer.
Imagem 1 -  Grávidas cruzam estradas rumo a uma maternidade que se tornou a grande referência para bebês que nascem antes da hora, em Mossoró, no interior do Rio Grande do Norte. Entre o isolamento frio da UTI e o aconchego do método Canguru, as histórias de Jarydia e Josilene revelam a poesia e a dor de mães que ensinam seus filhos a respirar. Diante de gargalos na assistência à gestação, o afeto e a medicina se entrelaçam em uma corrida diária para garantir o direito de crescer.
Grávidas cruzam estradas rumo a uma maternidade que se tornou a grande referência para bebês que nascem antes da hora, em Mossoró, no interior do Rio Grande do Norte. Entre o isolamento frio da UTI e o aconchego do método Canguru, as histórias de Jarydia e Josilene revelam a poesia e a dor de mães que ensinam seus filhos a respirar. Diante de gargalos na assistência à gestação, o afeto e a medicina se entrelaçam em uma corrida diária para garantir o direito de crescer.
Foto: Pedro Cezar

O silêncio de um berço vazio no quarto de hospital é o primeiro peso que Jarydia Silva, de 23 anos, precisou carregar. Para a operadora de telemarketing, a maternidade não estreou com o choro imediato ou com o calor do recém-nascido no peito. Veio em formato de ausência.

Diagnosticada no final da gestação com uma restrição severa de nutrientes, ela viu o parto de João Vitor ser antecipado às pressas, dois dias antes de a gravidez completar 37 semanas.

"No início foi meio complicado para entender tudo. Quando eu estava no quarto, e vinha os bebês e o meu não vinha, foi bem difícil", relembra Jarydia. O filho foi levado direto para os monitores da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal da Maternidade Almeida Castro, em Mossoró.

Imagem: Jarydia Silva, o esposo Fabricio Victor e o filho João Victor - Foto: Pedro Cezar

A angústia da separação durou um mês — tempo em que a rotina da mãe passou a ser contada pelas gramas que o menino conquistava na balança.  O desfecho dessa espera aconteceu há poucas semanas: com 2,8 kg, João Vitor finalmente recebeu alta.

Engenharia hospitalar e o "Mãe Curuja"

A trajetória de isolamento inicial vivida por Jarydia é o ponto de partida para os complexos protocolos internos da instituição potiguar. A pediatra Gilvanda Peixoto explica que a engenharia hospitalar é desenhada justamente para que a separação física entre mãe e filho seja o mais breve possível.

"Se a criança nasce principalmente com problema respiratório, ela vai para a UTI. Mesmo os de peso normal", detalha a médica. "Sai desse setor, tem um setor intermediário, que é o berçário de médio risco. Se ele tem boas condições, vai para o alojamento conjunto."

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Para aproximar as famílias, a maternidade criou o setor "Mãe Coruja", um alojamento interno para mulheres cujos filhos permanecem retidos na terapia intensiva. A estrutura evita que as mães precisem voltar para casa ou recorrer a abrigos externos.

"Aqui nós temos um setor dentro da maternidade para a mãe não se afastar. Ela tem o direito de visitar na hora que quiser, de manhã ou à tarde", afirma Peixoto.

Segundo a pediatra, essa proximidade física atua diretamente na recuperação clínica do recém-nascido por meio do contato pele a pele. "Mesmo o bebê tomando soro, se ele está respirando bem e fora do oxigênio, a gente já bota no colo da mãe para fazer a mãe canguru. O calor faz com que a criança ganhe peso e respire melhor."

Foto: Cezar Alves

Após a estabilização na UTI ou no berçário de médio risco, os bebês que pesam menos de 2 kg seguem para a Enfermaria Canguru. "É um setor específico e muito importante. A equipe ensina a mãe a amamentar e a alimentar, porque ela vai ter alta e vai levar esse menino", diz a médica.

Rotas da sobrevivência

Se para as moradoras locais a internação exige fôlego, o desafio se multiplica para as famílias que precisam romper divisas estaduais em busca de leitos de alta complexidade.

É o caso da professora Josilene Porfírio, que precisou deixar a cidade de Pereiro, no interior do Ceará, e percorrer uma rota rodoviária de 189 quilômetros até Mossoró. Sua filha, Maria Eliza, nasceu prematura extrema com 28 semanas e três dias de gestação, devido a uma infecção urinária assintomática contraída pela mãe.

"A gestação foi abençoada, porém teve algumas complicações e ela veio a nascer antes do tempo. Ela foi muito bem cuidada aqui, passou pela UTI Neonatal, depois foi para o berçário, passamos quase dois meses aqui", relembra Josilene.

O vínculo de longa distância estabelecido pela urgência médica já se estende por um ano, período em que a família mantém viagens frequentes de retorno para o acompanhamento ambulatorial na instituição potiguar.

O rigor pós-alta

O monitoramento pós-hospitalar é o pilar que sustenta os resultados da alta médica. Os critérios para liberação são rígidos: estabilidade respiratória, ausência de apneias ou engasgos, exames de sangue limpos, ultrassom craniano normal e ganho ponderal por três dias consecutivos até atingir o peso mínimo recomendado.

Imagem: Pediatra Gilvanda Peixoto - Foto Pedro Cezar

Quando o paciente atinge essas metas, a liberação ocorre de forma integrada ao ambulatório. "Essa alta não é uma alta de mandar embora. O bebê já sai com a consulta marcada para voltar aqui no setor do Follow Upa da Maternidade Almeida Castro", esclarece a pediatra Gilvanda Peixoto.

O retorno imediato deve ocorrer entre 48 e 72 horas após a saída para avaliar a amamentação e o peso. "Ela já vem na semana seguinte para ser acompanhada no ambulatório pela doutora Brena, especialista em neonatologia, que cuida desses meninos com todo rigor", diz. Este acompanhando gratuito, mas fundamental para o crescimento da  criança, dura por até 2 anos.

Gargalo na atenção básica

O volume de casos na Maternidade Almeida Castro reflete um problema crônico que satura a ponta final do sistema de saúde. No primeiro semestre deste ano, até o mês de junho 162 crianças nasceram prematuras e 106 com baixo peso na unidade mossoroense. 

Embora a estrutura hospitalar consiga absorver a demanda atual, a comunidade médica enfatiza que o cenário ideal seria evitar que esses nascimentos ocorressem antes do tempo estimado de 38 a 40 semanas. A resolução desse índice elevado depende de reformas na rede de atenção básica gerida pelas prefeituras.

"A maternidade tem estrutura para atender esses casos, só que a gente precisa evitar o nascimento de prematuros", adverte a pediatra. Ela explica que o nascimento antes de 37 semanas gera riscos de atraso no desenvolvimento intelectual e complicações físicas pela falta de maturação pulmonar e dos órgãos.

A chave para reverter os indicadores está na qualidade do pré-natal. O início tardio das consultas impede o diagnóstico de patologias comuns, com destaque para a sífilis, além de síndromes hipertensivas e diabetes gestacional.

"Atendemos muita sífilis aqui. Se fosse feito esse diagnóstico no primeiro trimestre, nas primeiras semanas, já trataria e evitaria dessa criança ficar internada dez dias tomando penicilina", aponta Peixoto. "O Brasil todo tem que melhorar o pré-natal em todos os aspectos. Tem melhorado muito, mas precisa melhorar."

Imagem 1 -  A pressa de vir ao mundo: O drama invisível e o calor do colo que salvam os bebês no RN

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