02 ABR 2026 | ATUALIZADO 12:37
MUNDO
por Jean Paul Prates (ex-presidente da Petrobras)
02/04/2026 08:59
Atualizado
02/04/2026 09:00

[OPINIÃO] Trump subsidia a “destransição energética”

A decisão anunciada entre o governo Donald Trump e a TotalEnergies é uma delas. Não se trata apenas de uma mudança de carteira empresarial. Trata-se de uma escolha política explícita: dificultar a energia renovável, inviabilizar a eólica offshore e premiar financeiramente a migração de capital para projetos de gás, petróleo e LNG. Mais, NA COLUNA OPINIÃO.
A decisão anunciada entre o governo Donald Trump e a TotalEnergies é uma delas. Não se trata apenas de uma mudança de carteira empresarial. Trata-se de uma escolha política explícita: dificultar a energia renovável, inviabilizar a eólica offshore e premiar financeiramente a migração de capital para projetos de gás, petróleo e LNG. Mais, NA COLUNA OPINIÃO.
Imagem: IA

Jean Paul Prates é Mestre em Política Energética e Gestão Ambiental pela Universidade da Pensilvânia e Mestre em Economia da Energia pela IFP School (Paris). Foi presidente da Petrobrás (2023 – 2024) e Senador da República (2019 – 2023).

Transição às Avessas

Há decisões de governo que revelam uma visão de mundo. A anunciada entre o governo Donald Trump e a TotalEnergies é uma delas. Não se trata apenas de uma mudança de carteira empresarial. Trata-se de uma escolha política explícita: dificultar a energia renovável, inviabilizar a eólica offshore e premiar financeiramente a migração de capital para projetos de gás, petróleo e LNG. O próprio Departamento do Interior dos EUA informou que a empresa investirá US$ 928 milhões em ativos fósseis e, em seguida, será reembolsada pelo governo pelo valor desembolsado nas licenças de eólica offshore que serão encerradas. A TotalEnergies confirmou o arranjo e declarou que deixará de desenvolver essa tecnologia no país.

Juridicamente, o governo americano chamará isso de “reembolso de taxas de arrendamento”, condicionado a reinvestimento equivalente. Economicamente e politicamente, o efeito é outro: dinheiro público sendo usado para remunerar a desistência de renováveis e acelerar a reorientação de capital para combustíveis fósseis.

É uma espécie de prêmio à regressão. Em vez de reduzir risco, destravar licenciamento, expandir rede, apoiar a curva de aprendizado e fortalecer a competitividade de uma tecnologia emergente, Washington decidiu pagar para enterrá-la.

O mais grave é o simbolismo. O mundo acaba de sair de um ciclo em que a comunidade internacional reafirmou a necessidade de triplicar a capacidade renovável até 2030 e acelerar a transição para conter o aquecimento global. IRENA, IEA e o próprio sistema ONU têm insistido que a expansão das renováveis é central para manter viva a meta de 1,5°C e para reduzir a vulnerabilidade geopolítica associada aos fósseis. Enquanto a direção exigida pela realidade climática é de aceleração, o governo Trump escolhe a contramão.

Não se trata de romantizar a eólica offshore. É uma tecnologia intensiva em capital, complexa, dependente de escala, previsibilidade regulatória, cadeia industrial e financiamento adequado. Exatamente por isso, precisa de Estado sério, planejamento e estabilidade, não de sabotagem deliberada.

Quando um governo cria obstáculos políticos e regulatórios para depois apresentar a retirada dos investidores como prova de inviabilidade econômica, não está fazendo mercado. Está fabricando o fracasso para justificar uma preferência ideológica por ativos fósseis.

A Reuters registrou que entidades do setor reagiram acusando a administração americana de retirar capacidade renovável da fila justamente em momento de alta necessidade energética.

Esse episódio deve interessar muito ao Brasil, porque aqui a lógica, guardadas as proporções, também vem se insinuando. O marco legal da energia offshore entrou em vigor em janeiro de 2025, mas somente agora, em 1º de abril de 2026, o CNPE aprovou diretrizes para sua regulamentação, ainda com promessa de decreto e de fluxo para emissão de DIP até maio. Ou seja, o país aprovou a lei, celebrou o potencial e, na prática, deixou o setor em compasso de espera regulatória por mais de um ano.

Ao mesmo tempo, o setor renovável brasileiro vem sendo ferido por uma crise estrutural de curtailment. O próprio MME só abriu em 31 de dezembro de 2025 a Consulta Pública nº 210 para discutir compensação por cortes de geração eólica e solar. Na prática, a resposta veio tarde, quando o problema já corroía caixa, confiança e capacidade de investimento. Ontem mesmo, a Reuters mostrou que geradoras renováveis no Brasil estão encolhendo operações, cortando empregos e suspendendo novos aportes diante das restrições operacionais, da incerteza regulatória e da ausência de solução clara para os prejuízos.

Os números ajudam a mostrar o tamanho do desarranjo. Em 2025, o curtailment atingiu cerca de 20% da geração eólica e solar, com perdas estimadas em torno de R$ 6 bilhões a R$ 6,5 bilhões, segundo levantamentos citados por entidades setoriais e veículos especializados. Não é um detalhe operacional. É um choque econômico que destrói a previsibilidade de contratos, eleva percepção de risco, afugenta capital e enfraquece a industrialização limpa que o Brasil poderia liderar.

E, enquanto renováveis enfrentam restrições, atrasos e incerteza, a política para potência tem dado sinais claros de favorecimento às térmicas. Em fevereiro, a Aneel aprovou novos preços-teto para os leilões de reserva de capacidade de 2026, após revisão solicitada pelo MME, com aumentos que chegaram a 100% para térmicas existentes a gás e carvão e forte elevação também para térmicas novas. Em março, o certame contratou quase 19 GW, com predominância de térmicas, e a CNN Brasil informou custo anual estimado de R$ 38,9 bilhões ao consumidor. Até o TCU apontou fragilidades metodológicas, riscos tarifários relevantes e de longa duração, além de possíveis distorções concorrenciais na modelagem do leilão.

É por isso que o caso americano não deve ser lido como uma curiosidade exótica. Ele é o retrato mais escancarado de uma tendência perigosa: a substituição da transição energética por uma política de contenção das renováveis e revalorização artificial dos fósseis. Nos Estados Unidos, isso aparece de forma brutal e assumida. No Brasil, aparece de forma mais difusa, burocrática e por vezes disfarçada de tecnicidade neutra. Mas o resultado caminha na mesma direção quando se desestimula o investimento limpo, se posterga a regulação, se tolera o desperdício de energia renovável e se organiza o mercado para dar conforto ampliado às térmicas fósseis.

Quanto isso nos custará no presente e no futuro? Custará mais caro na conta de luz, porque sistemas menos eficientes e mais dependentes de térmicas tendem a repassar custos maiores ao consumidor. Custará investimento, porque capital global não gosta de ambientes em que a regra muda, a infraestrutura atrasa e o poder público pune quem apostou na direção certa. Custará indústria, empregos qualificados e inovação, porque a economia da transição se instala onde há segurança, escala e coordenação. E custará clima, saúde pública e competitividade geopolítica, porque cada dólar desviado das renováveis para os fósseis amplia emissões, prolonga dependências e adia soluções. A conta da destransição nunca é barata. Ela só costuma ser empurrada para a sociedade, para os consumidores e para as próximas gerações.


Notas

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