
Uma sequência de falhas técnicas, operacionais e estruturais causou a queda do ATR 72 da Voepass em Vinhedo (SP), segundo o relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa). O acidente ocorrido em agosto de 2024 matou todas as 62 pessoas a bordo. A investigação revelou negligência na manutenção da aeronave, desatenção na cabine de comando e omissão na fiscalização. Diante da gravidade das descobertas, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) cassou o certificado operacional da companhia aérea. O documento foi encaminhado à Polícia Federal para subsidiar o inquérito criminal.
Vítimas do Rio Grande do Norte
Entre os passageiros do voo 2283 estavam dois representantes comerciais que residiam no Rio Grande do Norte e viajavam a trabalho. Thiago Almeida Paula, morador de Mossoró, e Constantino Thé Maia, residente na região metropolitana de Natal, cruzavam o país para fechar negócios. Ambos deixaram famílias, amigos e um forte legado no comércio local, tornando-se símbolos da dor que uniu o Nordeste e o Sudeste no luto pela tragédia.
Detalhes Técnicos do Estol Aerodinâmico
Os investigadores apontaram que o estol — a perda súbita de sustentação da aeronave — foi desencadeado pelo acúmulo severo de gelo nas asas. O avião decolou de Cascavel (PR) com o sistema de proteção contra gelo (deice) inoperante e entrou em uma zona de condições meteorológicas críticas. O gelo alterou o perfil aerodinâmico do ATR 72, aumentando o peso e reduzindo a força que mantinha o avião no ar. Sem a reação adequada da tripulação para recuperar a velocidade, a aeronave perdeu a sustentação e entrou em um parafuso chato irreversível até o impacto.
Confira o relatório completo do Cenipa
Fraude na Manutenção e Distração na Cabine
O Cenipa descobriu uma "cultura de normalização de desvios" profundamente enraizada na Voepass. A empresa registrava falsamente correções de manutenção que nunca existiram, mascarando pane nos sistemas de degelo de forma recorrente. Para piorar o cenário técnico, a análise da caixa preta de voz revelou que os pilotos se distraíram com conversas sobre assuntos pessoais e desrespeitaram a regra da cabine estéril. Eles ignoraram os sucessivos alarmes sonoros e visuais do painel que alertavam sobre a perda iminente de sustentação, selando o destino do voo.
