Cerca de 6% da população do Rio Grande do Norte convive com a doença de Chagas, segundo dados da Secretaria de Saúde Pública do Estado (Sesap). O cenário preocupa especialistas, que alertam para a subnotificação crônica, a persistência da enfermidade na América Latina e a concentração histórica de casos na mesorregião Oeste potiguar.
“Nós temos esse dado, mas a possibilidade é que esse número seja maior, cerca de 60% das pessoas não apresentam nenhum sintoma”, afirma a doutora em fisiologia, pesquisadora e professora da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), Valéria Almeida. Segundo a especialista, a ausência de manifestações clínicas imediatas mascara a real dimensão do contágio no estado. “Não foi erradicada, é uma doença endêmica em toda a América Latina”, adverte.
O epicentro no Oeste potiguar
Estudos epidemiológicos e boletins da Sesap revelam que a maior parte das notificações se concentra no Oeste do estado. A combinação do clima semiárido com a vegetação de Caatinga cria o habitat natural perfeito para a proliferação dos vetores. Além disso, as condições históricas de habitações rurais e anexos peridomiciliares (como currais e galinheiros) servem de refúgio para o inseto.
Foi justamente nessa região que se registrou o caso mais emblemático de transmissão oral do estado. Em outubro de 2015, o município de Marcelino Vieira enfrentou um surto agudo que acendeu o alerta da vigilância sanitária. Uma investigação detalhada, publicada na revista científica Cadernos de Saúde Pública da Fiocruz, confirmou 18 casos agudos e 3 óbitos na localidade. Durante o período do surto, a incidência da doença na região chegou a registrar um salto de 17 vezes acima da média local. O contágio coletivo foi associado diretamente ao consumo de caldo de cana artesanal contaminado vindo de uma mesma moagem.
Localizado na região do Alto Oeste do Rio Grande do Norte, distante cerca de 400 quilômetros da capital, Natal. Marcelino Vieira tem uma população estimada em aproximadamente 8.000 habitantes, a cidade foi emancipada em 1953 e tem sua economia fortemente baseada na agropecuária e no setor de serviços locais.
Confira a entrevista com a pesquisadora Valéria Almeida da Universidade Federal Rural do Semiárido – UFERSA:
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Vetor e formas de contágio
A transmissão clássica ocorre por via vetorial, quando o inseto conhecido como barbeiro pica o ser humano e elimina o parasita Trypanosoma cruzi em suas fezes perto da ferida. A infecção se consolida quando a vítima coça o local e introduz o protozoário na corrente sanguínea. Almeida faz uma distinção biológica importante sobre o inseto: “Nem todos os barbeiros transmitem a doença, apenas aqueles que se alimentam de sangue”.
Paralelamente, a transmissão oral — como a que atingiu os agricultores de Marcelino Vieira — acontece quando o inseto ou suas fezes são triturados acidentalmente junto com alimentos consumidos sem o tratamento térmico ou higienização adequados. Esse fenômeno se assemelha aos surtos provocados pelo consumo de açaí in natura no estado do Pará e, em outras regiões do país, pela ingestão de carne de caça malcozida de animais silvestres contaminados.
Avanço urbano e biologia dos insetos
O risco tem se aproximado das cidades devido à expansão urbana. A construção de condomínios e bairros que avançam sobre áreas de mata nativa destrói o habitat natural dos vetores, empurrando-os para dentro das casas em busca de abrigo e alimento.
Moradores de áreas urbanas costumam se assustar ao encontrar esses insetos, mas é preciso diferenciar as espécies. Existem os chamados "barbeiros vegetais" (fitófagos), que se alimentam apenas de seiva de plantas e não oferecem perigo aos humanos, e os barbeiros carnívoros/hematófagos. Estes últimos são os que se alimentam de sangue e atuam como os reais transmissores da doença de Chagas.
Prevenção e controle
Sem uma vacina disponível para uso em humanos, as ações de combate concentram-se na vigilância ambiental e no controle do vetor. A principal ferramenta de bloqueio nas áreas afetadas continua sendo a aplicação de inseticidas de ação residual pelas equipes de endemias, borrifados diretamente nas frestas de habitações rurais e periurbanas onde o inseto transmissor costuma se alojar.