Jean Paul Prates é Mestre em Política Energética e Gestão Ambiental pela Universidade da Pensilvânia e Mestre em Economia da Energia pela IFP School (Paris). Foi Secretário de Estado de Energia e Assuntos Internacionais da Governsdora Wilma de Faria no Estado do Rio Grande do Norte (2003–2005 e 2007–2010), Senador da República pelo Estado do Rio Grande do Norte (2019–2023), Coordenador do capítulo de Energía, Petróleo e Gás da Transição de Governo do Presidente Lula (2022–2023) e presidente da Petrobrás (2023–2024).
O resultado do Leilão de Reserva de Capacidade na forma de Potência (LRCAP) de 2026 traz uma resposta imediata a uma preocupação legítima – a segurança do sistema elétrico —, mas levanta dúvidas profundas sobre a qualidade do planejamento adotado e o custo que será imposto ao país nos próximos anos.
O Brasil contratou cerca de 19 GW de potência, com forte predominância de termelétricas a gás natural, que concentraram aproximadamente 80% da capacidade, além de participação de térmicas a carvão e ampliações hidrelétricas. O custo anual estimado gira em torno de R$ 38,9 bilhões, com compromissos totais superiores a R$ 500 bilhões ao longo dos contratos.
Em termos formais, o sistema passa a contar com maior capacidade de resposta. Em termos econômicos e estratégicos, porém, o que se observa é outra coisa: baixa competição, concentração de vencedores e priorização de soluções tradicionais em detrimento de alternativas mais eficientes.
Baixa competição e concentração: um sinal de alerta. Apesar do elevado número de projetos cadastrados, o leilão apresentou baixo nível de competição efetiva, com deságio médio reduzido – em alguns casos praticamente inexistente.
O resultado foi a forte concentração em poucos grupos e tecnologias já estabelecidas. Isso não é um detalhe operacional. É um sinal de que o desenho do leilão limitou a competição real entre soluções, favorecendo ativos já estruturados, especialmente térmicas conectadas à infraestrutura de gás. Em um setor onde decisões de contratação moldam décadas de custos para consumidores e indústria, baixa competição significa alto risco de ineficiência alocativa.
O leilão também expõe um paradoxo geográfico importante. Uma parcela relevante das usinas contratadas está localizada no Nordeste – região que, ao mesmo tempo, enfrenta curtailment recorrente de energia eólica e solar por limitações de transmissão e baixa absorção local de carga.
Ou seja: o sistema já desperdiça energia renovável em determinados momentos e, ainda assim, opta por contratar potência térmica nos mesmos polos.
Casos como Pecém (CE), Parnaíba/Teresina (PI) e Porto de Sergipe (SE) ilustram esse descompasso. Nessas regiões, há evidências de restrições na rede e dificuldades para conectar novas cargas – inclusive projetos de data centers que poderiam ajudar a absorver excedentes de energia limpa.
Em outras palavras: nega-se acesso a consumo produtivo que reduziria desperdício, enquanto se contrata geração de reserva mais cara no mesmo território.
Isso não é apenas uma incoerência técnica.
A lógica da usina de reserva – e seu custo invisível.
O LRCAP não contrata energia, mas disponibilidade de potência. As usinas recebem uma remuneração fixa para estarem prontas a operar quando necessário, independentemente de gerar efetivamente ao longo do ano. É uma espécie de “seguro de capacidade”.
Esse modelo é legítimo. Mas ele exige duas condições para ser eficiente:
1. Forte competição entre tecnologias
2. Escolha das soluções de menor custo sistêmico
Nenhuma dessas condições foi plenamente atendida. O resultado é que o consumidor passa a pagar por uma infraestrutura que pode ser pouco utilizada, mas que, ainda assim, representa um custo fixo elevado – na casa de dezenas de bilhões por ano.
Gás, carvão e hidrelétricas: escolhas discutíveis
A predominância das térmicas a gás levanta uma questão econômica relevante. O gás natural é um insumo estratégico, com maior valor agregado quando utilizado na indústria – fertilizantes, petroquímica – do que na geração elétrica de reserva. Direcioná-lo massivamente para esse fim representa uma escolha de baixo retorno econômico relativo.
A presença de térmicas a carvão, por sua vez, é ainda mais problemática. Trata-se de uma tecnologia poluente, antiquada e pouco compatível com a flexibilidade exigida pelo sistema moderno.
Já as hidrelétricas continuam sendo ativos importantes, especialmente com reservatórios. Mas sua expansão marginal é cada vez mais cara, lenta e sujeita a restrições ambientais e hidrológicas.
Que fique claro: o problema não é usar essas fontes. É usá-las quase exclusivamente, ignorando alternativas complementares.
O que ficou de fora: armazenamento, digitalização e demanda
O ponto mais crítico do LRCAP talvez seja aquilo que ele não fez. O Brasil segue sem um marco regulatório robusto para armazenamento de energia em larga escala. Sistemas de baterias poderiam capturar excedentes renováveis e devolvê-los ao sistema com rapidez, reduzindo tanto o curtailment quanto a necessidade de despacho térmico.
Além disso, há ferramentas subutilizadas:
– resposta da demanda
– digitalização da rede
– redes inteligentes
– atração de cargas eletrointensivas próximas à geração
Essas soluções já são amplamente utilizadas em outros países e poderiam reduzir significativamente o custo sistêmico da transição energética brasileira. No entanto, não competiram em igualdade de condições neste leilão.
Uma escolha de caminho – não de necessidade
É importante deixar claro: a necessidade de potência é real. O erro não foi contratar capacidade.
O erro foi como essa contratação foi feita:
– com baixa competição
– com concentração tecnológica
– e sem integrar soluções mais modernas
Isso leva a uma conclusão incômoda: o Brasil pode estar resolvendo o problema certo com a solução errada – e mais cara.
Quem paga a conta
Os impactos não são imediatos para o consumidor comum, mas são inevitáveis.
A contratação de cerca de R$ 39 bilhões por ano em capacidade tende a se refletir, ao longo do tempo, em:
– tarifas mais altas
– aumento do custo da energia para a indústria
– perda de competitividade econômica
Além disso, há um custo indireto: o atraso na modernização do sistema elétrico e na integração eficiente das renováveis.
Uma falha de planejamento – ou de decisão
O Brasil tem todas as condições para liderar a transição energética:
– abundância de recursos renováveis
– base hidrelétrica relevante
– escala de mercado
O que falta não é recurso. É direção.
E aqui cabe uma reflexão institucional.
A complexidade técnica do setor elétrico muitas vezes impede que decisões como essa sejam plenamente compreendidas fora de círculos especializados.
Isso levanta uma dúvida legítima: o nível de informação estratégica que chega ao topo da decisão política está refletindo, de fato, os custos e implicações dessas escolhas?
Porque, se estivesse, seria difícil justificar a demora na regulamentação do armazenamento e a ausência de um planejamento mais integrado.
Em suma: o LRCAP entrega potência. Mas não entrega, necessariamente, eficiência. E o risco é claro: consolidar um modelo caro, pouco competitivo e desalinhado com a evolução tecnológica do setor elétrico.
O Brasil não pode se dar ao luxo de repetir soluções do passado em um sistema que já mudou. Planejamento energético não é apenas garantir segurança. É garantir segurança ao menor custo e com visão de futuro.
E é exatamente isso que ainda está faltando.