O Brasil vive uma inversão silenciosa de valores. Em um mundo no qual ciência, engenharia, saúde e tecnologia definem o poder das nações, passamos a admirar, remunerar e promover majoritariamente atividades de baixa densidade produtiva. Tornamos a visibilidade um fim em si mesma, e não um instrumento a serviço da construção coletiva.
Não se trata de demonizar influenciadores digitais nem o universo da comunicação. Comunicação sempre foi essencial. O problema surge quando ela ocupa o centro do projeto nacional, enquanto o conhecimento técnico, científico e produtivo é relegado à periferia do prestígio social, do orçamento público e da imaginação coletiva.
Países que entenderam a dinâmica do século XXI fizeram escolhas claras. Investiram pesadamente na formação de engenheiros, médicos, cientistas, técnicos e especialistas em tecnologia. Construíram sistemas educacionais coerentes com suas estratégias industriais, sanitárias, energéticas e digitais. O resultado é maior produtividade, autonomia tecnológica, empregos qualificados e poder de decisão no cenário global.
O Brasil seguiu outro caminho. Desindustrializou-se precocemente, enfraqueceu o ensino técnico, fragmentou sua política científica e naturalizou a ideia de que bastaria exportar commodities e importar tecnologia. Ao mesmo tempo, passou a premiar socialmente atividades de retorno rápido, baixa estabilidade e reduzida contribuição estrutural para o desenvolvimento.
O efeito é conhecido e mensurável. Baixa produtividade, déficit em bens industriais e tecnológicos, dependência de plataformas estrangeiras, escassez crônica de profissionais em engenharia, tecnologia da informação e saúde especializada. A informalidade se mantém, a renda se concentra e o país perde capacidade de planejar o próprio futuro.
A meu ver, a correção desse caminho não passa por moralismo, censura ou nostalgia. Passa por política pública, planejamento e reordenação de incentivos.
A primeira chave é valorizar o conhecimento produtivo. Professores, pesquisadores, engenheiros, técnicos e profissionais da saúde precisam ter carreiras atrativas, estabilidade, remuneração digna e prestígio social. Não existe educação de qualidade sem valorização de quem ensina e produz conhecimento.
A segunda é reconstruir o sistema educacional como projeto nacional. Ensino básico forte em leitura, matemática e ciências. Ensino técnico integrado ao ensino médio, conectado às realidades regionais. Universidades articuladas com a indústria, com o sistema de saúde, com a transição energética e com os desafios ambientais. Formação pensada para resolver problemas reais do país.
A terceira é um Estado indutor do desenvolvimento, não um Estado espectador. Compras públicas, encomendas tecnológicas, bancos de desenvolvimento e fundos de inovação devem ser usados para criar mercado para tecnologia nacional. Foi assim que os países desenvolvidos fizeram, e continuam fazendo.
A quarta é organizar a economia digital com propósito social. Plataformas digitais são parte do mundo contemporâneo, mas precisam contribuir para o financiamento da educação, da ciência e da inovação. Comunicação deve amplificar conhecimento, não substituí-lo. Influência é meio, não fundamento.
Por fim, é preciso reconstruir a narrativa de futuro da esquerda brasileira. Justiça social não se faz apenas com transferência de renda, mas com acesso ao conhecimento, ao trabalho qualificado e à capacidade de produzir. Soberania não é discurso, é competência acumulada. Democracia forte exige cidadãos preparados, não apenas conectados.
O Brasil já provou que sabe fazer isso. Quando apostou em engenharia, energia, saúde pública e educação, avançou. O passado ensina. O futuro exige que façamos isso de novo, agora adaptado à era digital, climática e tecnológica.
País que não forma gente para construir acaba apenas assistindo. Influência passa. Conhecimento fica. E só quem constrói tem futuro.
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Jean Paul Prates é Chairman do CERNE.org.br. Mestre em Política Energética e Gestão Ambiental pela Universidade da Pensilvânia e Mestre em Economia da Energia pela IFP School (Paris). Foi presidente da Petrobrás (2023 – 2024) e Senador da República (2019 – 2023).