O estado do Rio Grande do Norte concentra aproximadamente 95% da produção de sal marinho do Brasil, conforme dados do Sumário Mineral Brasileiro da Agência Nacional de Mineração (ANM). Por conta dessa forte presença, a indústria salineira impacta diretamente indicadores econômicos, como o PIB regional, a geração de empregos e a arrecadação de impostos.
Atualmente, o setor é responsável por cerca de 3,5% do PIB do RN, além de gerar aproximadamente 4 a 5 mil empregos diretos na região produtora. Quando considerada toda a cadeia produtiva, esse número pode ultrapassar 50 mil empregos, evidenciando sua grande importância social e econômica. Além disso, a atividade salineira movimenta cerca de R$ 1,5 bilhão por ano na economia regional e contribui significativamente para a arrecadação de impostos.
Como forma de otimizar a produção, pesquisadores da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (Uern) estudaram a aplicação um método para retirar as impurezas que restam do processo de produção do sal, de modo a melhorar a qualidade do produto.
De forma geral, a produção de sal marinho segue algumas etapas principais: captação da água do mar, evaporação, cristalização, colheita, lavagem, secagem e, por fim, o beneficiamento. A etapa de lavagem, que é a quinta do processo, tem como objetivo reduzir impurezas, como cálcio e magnésio. Para isso, costuma-se utilizar água doce, salmoura ou até mesmo a própria água do mar.
No entanto, esse processo apresenta algumas desvantagens. Essa etapa pode causar a dissolução de parte do sal, reduzindo a quantidade do produto final. Considerando que essas impurezas afetam diretamente a qualidade do sal, pesquisadores do Laboratório de Catálise, Ambiente e Materiais (LACAM) da Uern propuseram o uso de zeólitas para capturar cálcio e magnésio. Com isso, busca-se melhorar a qualidade do produto final e contribuir para o fortalecimento da indústria salineira local.
“As zeólitas são minerais de aluminossilicatos hidratados (minerais compostos por átomos de alumínio, silício e oxigênio, com cátions adicionais possivelmente de sódio, potássio, cálcio, essenciais na formação de argilas e rochas), que possuem a capacidade de capturar íons de cálcio e magnésio. Por conta dessa propriedade, elas são bastante utilizadas no tratamento da chamada ‘água dura’, aquela com alta concentração desses íons. Além disso, as zeólitas também podem ser aplicadas em diversos processos industriais, justamente por ajudarem na remoção de impurezas”, explica o professor Vinícius Caldeira, coordenador da pesquisa.
A aplicação das zeólitas no processo de produção do sal marinho foi pensada para acontecer logo na etapa inicial, durante a captação da água do mar, por meio de um sistema de filtragem semelhante ao utilizado no tratamento de água para consumo humano. Para isso, foram realizados testes com um protótipo de fluxo contínuo.
Esse protótipo simula o processo de filtragem com zeólitas, pelo qual a água do mar passa de forma controlada, permanecendo em fluxo contínuo por um determinado período de tempo. Durante os testes, foram utilizadas amostras reais coletadas em tanques da empresa parceira. Após o processo, as amostras foram analisadas para quantificar a redução das impurezas de cálcio e magnésio.
Os testes com o protótipo mostraram resultados bastante promissores, alcançando nos primeiros minutos uma redução na dureza da água de aproximadamente 35%, por sistema filtrante. Ao atuar antes da etapa de cristalização, o processo impede que os íons de cálcio e magnésio sejam incorporados ao sal desde a sua formação. “Na prática, isso representa uma melhoria direta na qualidade do produto final, indo além do que os métodos tradicionais de lavagem conseguem alcançar”, destaca o pesquisador.
O emprego de zeólitas no processo produtivo do sal marinho, em etapa rápida e única, ainda não havia sido descrito na comunidade científica e de desenvolvimento tecnológico. Assim, a tecnologia desenvolvida foi protegida por meio do depósito de uma patente de processo no INPI (BR 10 2026 0010537). Portanto, a UERN consolida a produção científica com potencial de aplicação tecnológica.
A pesquisa é desenvolvida pelo Programa de Mestrado e Doutorado Acadêmico para Inovação (MAI/DAI), com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) conjuntamente com o Programa de Pós-graduação de Ciências Naturais (PPGCN/UERN) e empresa parceira para a formação de recursos humanos com elevada qualificação.