Um conflito silencioso pelo controle das águas subterrâneas e superficiais tensiona os territórios de Upanema, Caraúbas, Apodi, Felipe Guerra e Governador Dix-Sept Rosado, no Oeste do Rio Grande do Norte. No centro da disputa está a gestão das reservas hídricas, coordenada pela Agência Estadual de Águas (IGARN), e o impacto direto na sobrevivência de pequenos produtores e comunidades ribeirinhas.
A região abriga um aquífero abundante que se estende de Upanema até o Vale do Jaguaribe, no Ceará. Historicamente, essa reserva era capaz de fazer a água jorrar naturalmente em dois pontos icônicos: um "olho d’água" em Felipe Guerra e o chamado Poço Feio, em Governador Dix-Sept Rosado, ambos alimentando o leito do Rio Apodi-Mossoró.
Contudo, o cenário mudou drasticamente:
Em Felipe Guerra: O olho d’água natural parou de jorrar.
Em Governador Dix-Sept Rosado: O Poço Feio registrou uma redução severa de vazão nos últimos dois anos.
As consequências são devastadoras para a economia local. O engenheiro agrônomo Rodrigo Benjamim perdeu 100% de sua produção de alface em uma área de dois hectares na região de Lagoa de Paus. Em São João da Várzea, criadores de ovinos ficaram sem forragem, enquanto na localidade de Maxixe, agricultores enfrentam dificuldades até para obter água potável.
Especialistas e moradores levantam duas hipóteses principais: o aumento desenfreado de poços perfurados para a fruticultura irrigada e a escassez de chuvas nos últimos anos, que impediu o reabastecimento natural do lençol freático.
No campo das águas superficiais, a Barragem de Santa Cruz, em Apodi — com capacidade para 600 milhões de m³ —, deveria ser a solução. Inaugurada em 2002 para perenizar o Rio Apodi-Mossoró e garantir o abastecimento em períodos de seca, a realidade tem sido diferente.
Em 2024, após sua primeira sangria em fevereiro, a água liberada pelas comportas não conseguiu ultrapassar o território de Felipe Guerra, deixando comunidades como a do Maxixe em situação crítica.
O conflito ganhou voz em 2025, quando moradores de São João da Várzea e Lagoa de Paus — que desconheciam depender do Poço Feio e acreditavam ser abastecidos pela barragem — pediram o aumento da vazão das comportas. Em outubro de 2025, o IGARN elevou a vazão de 1.300 para 2.200 litros por segundo, fazendo com que a água finalmente chegasse ao Maxixe, Passagem de Pedras e São João da Várzea no início de 2026.
A solução temporária deu lugar a um novo embate. Vereadores de Felipe Guerra, liderados pelo Professor Luiz Aguinaldo e com apoio do presidente da Câmara, Max Morais, denunciam que produtores de Apodi estariam realizando barramentos irregulares no leito do rio para reter água na Lagoa do Apodi.
"A água precisa seguir seu fluxo natural para beneficiar a todos até Mossoró", defende o vereador Luiz Aguinaldo.
A mobilização agora busca o apoio de legisladores de Governador Dix-Sept Rosado e Mossoró. O objetivo é pressionar o IGARN por uma fiscalização rigorosa das outorgas (autorizações de uso de água) e garantir que o uso dos mananciais esteja dentro da legalidade.
A discussão ganha urgência com a proximidade da chegada das águas da Transposição do Rio São Francisco à Barragem de Santa Cruz. Além disso, a CAERN iniciará em breve a extração de água do aquífero na região do Carrasco (entre Felipe Guerra e Apodi) para abastecer a zona oeste de Mossoró.
A pauta defendida pelas lideranças locais não é a interrupção das atividades econômicas, mas o uso racional. O desafio é equilibrar a pujança da fruticultura com a sobrevivência das comunidades ribeirinhas e a preservação do lençol freático, evitando que as reservas do Oeste potiguar se esgotem de forma irreversível.